Dias Ordinários


10h24

Fotografia: Tom Boechat
Texto: Luiz Guilherme Santos Neves






Trabalhadores do Brasil, uni-vos!, a convocação escorreu pelo megafone numa voz fanhosa como se passasse através de um tubo com areia e, fanhosa, encheu a rua na manhã daquela segunda-feira chegando até a janela de um quarto-e-sala, onde entrou e foi bater nos ouvidos da mulher que acordou estremunhada, aquilo não era hora de uma voz de megafone vir tirá-la da cama, aquele não era um dia em que se devesse sair da cama às 10,24 da manhã, logo ela que passara a noite sendo devorada viva pelo carcamano que jazia ao seu lado, nu e branco, estremecendo em roncos, nem parecia que berrava lá fora um megafone convocando, na segunda pessoa do plural, os trabalhadores do Brasil para se unir numa greve geral por um salário mínimo que não fosse tão mínimo como sempre tinha sido, um mínimo que pelo menos já tivesse se tornado médio, pensou a mulher chegando à janela e começando a se fazer solidária com a convocação que vinha da rua.
Só então se deu conta de que também estava nua, nua e branca como o carcamano que ressonava no leito, os olhos feridos pela tropical luminosidade da manhã ensolarada, percebendo ainda que, ao se pôr inteira e desprotegida à janela do seu quarto-e-sala, oferecia a sua nudez de prostituta à luz avassaladora da manhã em que foi flagrada pelo sindicalista de megafone à boca, cruzando-se os seus olhares num fiapo de tempo, o bastante, porém, para que, pelo tubo do megafone, mudasse o sindicalista o seu recado sob a inspiração da mulher desnuda, trabalhadoras do Brasil, uni-vos por um salário mínimo mais justo!

Esta greve não é pra mim, pensou a mulher voltando ao leito. Na mesinha de cabeceira, sobre a revista Minha Novela que, na primeira página, apresentava duas chamadas sobre o seriado Celebridade, da Globo (Renato é seduzido por Maria Clara e Vladimir se torna um garanhão), o despertador comprado no camelô marcava 10,28.


Escrito por tom boechat às 05:06 PM
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Arrebatado como um carro de fogo num leilão em Copacabana

Fotografia: Tom Boechat
Texto: Elton Pinhero






Arrebatado como um carro de fogo num leilão em Copacabana. É assim que Urbano se refere à tela de Mabe, acima de sua poltrona. Esse Manabu... E desce contra os clientes num rio de tinta e cores, amalgamadas entre redemoinho e poema que vão confluir num imenso banner da campanha vendendo pasta de dente. A agência da Graça Aranha tem oito salas; viagem belíssima a atravessar texturas e formas, barcos de Silvio Pinto, seios oníricos de Orlando Teruz, década horizontal de Jorge Guinle; até mesmo uma grande tela azul de Arcângelo Ianelli.

Urbano ainda não chegou ao escritório, mas vem no elevador. Capa de chuva molhada, bolsa de couro escondendo o Mac. Ele usa computador de artista só pra disfarçar o executivo dentro do peito, com a certeza de que o céu é logo ali, no alto.

Mas não sabe que Vitório retornou de Verona usando um cinto Hermès: tornou-se sócio na agência. O elevador e seu passageiro metropolitano estão passando pelos primeiros andares do último dia na Graça Aranha. Vitório sorri amenidades para os sócios e para Taís, de olhos negros para a tela de Urbano acima de sua poltrona. Os três o aguardam. Alienado da sala ampla no atraso chuvoso, ele não sabe que a perdeu.

Foi há dois anos que suas vidas transpassaram, Urbano e Taís. Ela estudava Comunicação, leitora entre contos de Guimarães Rosa. Uma terceira margem, nunca iria voltar. A cidade reapresenta a Urbano pessoas desconhecidas, diariamente. Quando se reencontraram na agência há uma semana, nada mudou entre eles.

O elevador esvazia em resposta à campainha que acende números. A porta arredou, desaparecendo. Urbano está caminhando em direção à sua sala, onde Vitório ensaia uma orquestra, contempla a vista, a tela vermelha de Urbano. Amigavelmente seu sorriso se completa ao ver que seu interlocutor chegou.

Urbano vai acender um Marlboro, num estalo de isqueiro Zippo. Verá que Vitório voltou da Itália fumando charuto, consumado. Continua quinze anos mais velho, loiro, barrigudo querendo happy hour com Taís às sextas-feiras. Urbano vai coçar o lado direito da calva nascente no cabelo preto acreditando ser alguém no Cinema Tedesco para sumir como nuvem de nicotina e glamour. Vai correr os olhos para sua tela acima da poltrona, orgulhoso por ter arrebatado como um carro de fogo e etc. Vitório, ao seguir os olhos de Urbano vai descobrir um sorriso no próprio rosto, depois procurará Taís que romperá o silêncio falando sobre o anúncio da pasta de dente, sobre o Brasil.

Taís é uma ouvinte jovem, opositora sensível. O cigarro de Urbano soltará no ambiente um ódio elegante, lascivo e morto. Enquanto a conversa evolui para o fim, Urbano lembra de sua sala fechada, no Largo da Carioca. Súbito vem ao seu rosto a contorção de uma tarde em que estava sozinho, escrevendo o texto de um anúncio de cigarros, fumava e bebia um café embalado a vácuo.

O Largo da Carioca explodia sol e palavras, buzinas de um caos distante. Quando chegou à janela para olhar o vale que a imensa praça emoldura, olhou para baixo e viu, desancado sob o sol a pino, um pregador, pingado no meio de uma roda. De costas para ele, terno de cinema europeu, o homem lia um livro, mas seu discurso emudecia na imensidão de outros. No entanto, sua imagem, tão digna quanto incompreensível, apagara o texto do anúncio de cigarros. Urbano não ouvia o que o homem falava, muito abaixo dele, apenas seus gestos o impressionavam, suas costas vistas do último andar listravam uma prisão alada. Urbano nunca entendeu aquela imagem e presumiu que a fala daquele corpo era simples demais para ser acreditada. Urbano, que sempre esteve em algum último andar, ouvia apenas vozes esparsas, Vitório e Taís que ao longe discorriam. Ele sempre leu muitos livros, mas não aquele, espremido nas mãos do pregador. Urbano sempre foi urbano demais.



Escrito por tom boechat às 04:09 PM
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Passageiro

Fotografia: Tom Boechat
Texto: Herbert Farias






O sol se cravava como uma lança por trás da última paisagem do dia, como se invejasse o pequeno caixão conduzido por quatro ou cinco manchas semivivas. Mais tarde, já um tanto aluada pela estupidez da falta, a mãe de Maria diria às velhas carolas que o sol daquele dia se punha mais rápido em homenagem a sua filha. Era um fato que Maria sempre amou a claridade, a quentura daquela terra seca, destemperada como sua alegria de oito anos de idade. Pelo que lembro, quando o cortejo sumiu na curvatura da terra, foi como se levasse junto um sol que me faltaria.

O mundo passou a ser uma noite sem sono. Meus pés exaustos daquela terra de pestes ensaiaram uns passos de pouca vontade para a parada dos trens ocasionais que, ao contrário de mim, pareciam saber bem aonde ir. Havia um alívio discreto no único banco de espera, toscamente abrigado por telhas de barro. Certamente o alívio da sua distância do cemitério. Foi ali que tentei equilibrar as cruzes mortuárias das lápides com as linhas paralelas dos trilhos, que se não ofereciam, com seu rumo terreno, a ressurreição, ao menos faziam supor uma terra sem a peste.

Embarquei num dos carros gastos e esperei, numa vigília irreparável, que ele me trouxesse a esta estação deserta. Contudo, a certeza do rumo era o mais ausente dos meus atributos, e eu passei tanto tempo diante da janela do vagão, contemplando, em meio ao pôr do sol, aquela paisagem se movendo para trás – com uma pressa que, aliás, eu não tinha – que quando cheguei aqui, o chão, as árvores, o céu e tudo mais parecia se contorcer no sentido contrário, de modo que muito do óbvio ainda pergunto, a fim de construir meu mapa.

Um vento gelado impregnava a carne, enquanto o amanhecer de um dia qualquer não vinha aquecer os bancos áridos da estação. Mais do que um vento de mover folhas, no entanto, o que soprava era a consciência desses anos músicos, que assobiam a fanática gana do tempo em deitar sepultos os filhos da terra. Quando eles movem calendários, páginas de diários, endereços e certidões, trazem nas suas vagas flagelos e choques. É inútil querer subsistir à sua dança, ao seu canto devorador, agarrar-se a algo que pareça sólido. Eles encobrem os ventres de todos com uma mortalha de vento frio, toda vez que falta pouco, toda vez que já passou tempo demais. E eles decretaram, em sua indecifrável tábua de cálculo, que oito anos na companhia de Maria tinham sido suficientes. Sua enormidade permitia, no entanto, que eu desferisse meus golpes irados e inúteis contra a falta de Maria, sem castigar-me, sem cortar-me as palavras com golpes de destino abrupto. Era-me permitido viver com dor, era concedido que eu ofendesse os ares com a arrogância do meu choro ruidoso. Um coração assim cheio de nuances de azedume, repleto do vazio de Maria e da arbitrariedade dos tolos, mais cedo ou mais tarde arremessa o corpo no sono mais viscoso, impossível de se evitar. A lucidez desse sono finalmente me chegou com uma suavidade segura, recuperando um território legítimo. Dormi sentado no banco da estação deserta, ainda tragado pela noite fria, mas apaziguado com o tempo por uma esperança que cedo ou tarde traria um aroma de consolo depois do torpor da peste, e da companhia da morte. Quando acordei, era dia de sol alto, e uma agitação de passageiros num transe ansioso me recebeu em vigília. Custei a levantar daquele catre de uma noite sem sonhos. O corpo doía inteiro, ao menos para dizer que não estava gangrenado.

Ensaiei uns passos pela estação sem paz. Os rostos teriam me divertido em outros tempos, mas ainda não era lícito rir. Galgando espaço na procissão desenfreada dos passantes, um homem marchava sobre tocos de pernas, como num exercício de penitência. Vendia chicletes, mais com seu rosto de mártir devastado do que propriamente movendo os lábios. Calculei que o sabor fosse de ervas amargas e trouxesse náuseas a quem se servisse, mas o homem dizia a todos Deus lhe pague. Uma menina lhe dava a mão, o olhar cavando o chão imundo da estação, parecendo mais sozinha do que se não tivesse ninguém. Estranhamente, o tamanho das duas figuras dava uma impressão de uma mãe e seu filho. Aproximei-me dos dois e pedi uns chicletes, muito mais para tentar dizer algo que não ficasse contido apenas na memória moída. A menina parecia um pouco mais velha do que Maria, e muito mais triste. Eu quis lhe dizer que seu tempo chegaria, e que ela sorrisse, uma carranca falsa que fosse, para adestrar o rosto, mesmo que tivesse de carregar o pai aleijado nas costas, mas só consegui murmurar um amém aos bons votos do homem. Quando se distanciaram, recomecei meus passos sem apetite, chegando aos limites da estação. Agora a cidade me aguarda do outro lado da rua, mascando seus habitantes e cuspindo-lhes as buchas sem sabor numa lixeira comum. Verifico em meu corpo de caçador vestígios da peste, sem os achar. Vou atravessar a rua, com um princípio de pressa ridícula, evitando o peso dos ônibus e caminhões. Mergulharei no petróleo e no concreto, tentando esconder Maria numa gruta distante onde não a possa encontrar. Uma segunda pele, dura e feia, vai encobrir com um riso raro e dois olhos secos os segredos da viagem.





Escrito por tom boechat às 03:07 PM
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