Dias Ordinários


Barbearia

Fotografia: Tom Boechat
Texto: Luiz Guilherme Santos Neves






Ainda não chegara a hora. Não mais a hora de varrer o chão e remover para o lixo os pêlos das tonsuras, de recolher o jornal que lera e relera até o ultimo anúncio dos classificados, de apagar as luzes do salão outrora atopetado de fregueses, de cerrar suas portas e dar por encerrado mais um dia de trabalho, igual a tantos outros, uma enxurrada deles como um carretel de cotidianos rotineiros, uma centena de milhares de dias ordinários que se enfileiravam um atrás do outro e desembocavam na monotonia do nada, milhares de pêlos cortados aos fregueses que antes se revezavam com freqüência nas cadeiras da barbearia, de quem é a vez, como vai doutor, mas que agora simplesmente haviam desaparecido, uma cordoalha de fios desbastados com sua tesoura de ponta fina e sua navalha de cabo de madrepérola durante mais de quarenta anos sem qualquer variação de ritmo ou toada, uma ronda viva em torno da cadeira morta onde se acomodavam os fregueses para o ato higiênico de fazer cabelo, barba e bigode, e ele ali, a mão armada, a tesoura em riste para os cortes curtos e precisos, nem um milímetro a mais ou a menos – tique-toque –, a poda certa no lugar preciso – tique-toque –, a ponta da tesoura entrando com capricho e leveza no chumaço de pêlos que tinham de ser aparados ou removidos – tique-toque –, as mechas caindo em flocos silenciosos no piso de cerâmica em torno dos seus pés, em torno da cadeira que se tornara o centro de gravidade de sua vida inglória, ao redor do qual caminhara com as pernas martirizadas pelas varizes quilômetros de estrada sem fim, andarilho absurdo de tapetes de cabelos mortos, sempre ao tique-toque da tesoura como ao som de um relógio da vida, tique-taque, sem sair do lugar caminhara anos e anos preso àquele ruído mastigado que não lhe dava margem à fuga, acorrentado a um ofício sem grandeza numa dolorosa navegação em torno do seu campo de trabalho – a cadeira da barbearia –, enquanto se empenhava em atender com esmero e atenção à freguesia que, apesar de tudo, fora-se embora e não voltara, de quem é a vez?

Dele era a vez e em suas mãos estava a hora. Ia se levantar da poltrona como tantas vezes dela se levantara, ia recolher o jornal que lera e relera entediado, uma reportagem de primeira página no suplemento cultural falava do consumo do sanduíche Big Mac na cidade de Vitória, o que valia para Vitória valia para o mundo inteiro, Maria Não Sei de Quê, feliz da vida na fotografia, disse que sua paixão pelo Big Mac era doentia, acho que o segredo é o picles que vem dentro, adoro picles, André dos Anzóis Carapuça afirmara, risonho e satisfeito, que era fissurado em Big Mac por causa do seu gosto original, acho que eles devem botar alguma química naquele molho para viciar a gente, considero-me um viciado completo e acabado, Germano Só das Carapuças assegurou, exibindo beociamente na fotografia o sanduíche mordido pelo meio, que viver é comer Big Mac em Vitória, e ele, que se levantara da poltrona com o jornal que lera e relera de cabo a rabo e o recolhera para jogar fora, indiferente à empolgação gastronômica de Maria, André e Germano por um reles sanduíche americano, ia cerrar as portas do salão como tantas vezes as cerrara, ia apagar as luzes como tantas vezes apagara, deixando acesa apenas a lâmpada em frente da sua cadeira antiga de barbeiro, mastodonte pesadão em que se acomodavam seus fregueses idos e não vindos, na qual finalmente se sentaria contemplando-se ao espelho como um objeto sombrio e decaído, para, com toda a calma e mestria de que era capaz, cortar os pulsos com a navalha de cabo de madrepérola num gesto definitivo, tique e tique, sem nunca ter comido um Big Mac.


Escrito por tom boechat às 11:22 AM
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Herança

Fotografia: Tom Boechat
Texto: Herbert Farias







Sentado na varanda, na cadeira secular que pertencera a meu pai, a meus avós e a tantos ancestrais desconhecidos, eu tinha no colo o mais novo presente do céu à linhagem modesta da família. Meu filho sugava o leite na mamadeira com uma sofreguidão que me enchia de esperança e uma certa saudade precoce. Pressa de crescer. Eu enviava o mesmo sorriso de sempre ao horizonte, para aquela mancha poeirenta que vinha pela estrada de terra em meio ao descampado, como uma miragem que caminhasse lentamente para mim.
Depositei a mamadeira vazia no assoalho da varanda, onde também firmei os pés do menino. Vi-o andando, numa competência crescente. Chutei a mamadeira para o quintal em frente à varanda, numa risada vitoriosa que tripudiava sobre os desafios à vida. Como se juventude fosse contagiosa, voltei a olhar o moleque e dei-lhe um chute moderado no traseiro, o que fez com que ele corresse atrás de mim para uma revanche. Pus diante dele a tabuada, as letras, nomeei-lhe os animais do livro e do quintal como um Adão de outros tempos. Derramei-lhe os oceanos e rios, plantei bandeiras e nomes nos países dos mapas. Já ia pelo meio-dia quando um olhar à estrada devolveu a mancha duas vezes maior que antes, uma miragem menos distante, mais real, um presságio que se cumpria, inexorável. Estendi ao menino o prato, agradecemos a Deus por todos os manjares da vida, mesmo os que ainda haveríamos de conhecer.
Após o almoço não convinha ruminar saberes nem brincar de correr. Recorri às piadas, às histórias, aos ditos populares. Perguntei-lhe muitas vezes o que é o que é. Rimos juntos, e foi então que sua voz me surpreendeu de tão grave. Instintivamente ergui os olhos para a trilha e a nuvem de pó já beirava o portão. O caminhão ora sofria os solavancos impostos pela estrada tosca, ora sacudia-se com o entusiasmo de todos os rapazes na carroceria descoberta. O motorista era acossado por todos para acelerar rumo ao destino, mas seguia devagar, consciente do rigor do caminho e da inutilidade de toda pressa. Tinha seu trajeto como inevitável. O veículo parou em frente ao portão, sem desligar o motor, e os rapazes acenaram e assobiaram ruidosamente para o menino feito homem, convidando-o sem chance de recusa para que se juntasse a eles. A nuvem de poeira era parte da sua festa, um lúdico sinal dos tempos localizado no leito daquela estrada de terra.
O jovem olhou-me. Seu olhar era definitivo. Entreguei-lhe a mochila, meio gasta pela espera, e abracei-o como se pudesse reter sua história entre os braços. Mal ele entrou e se acomodou, o caminhão recomeçou sua marcha lenta, e o rosto conhecido sumiu na poeira, no crepúsculo e na comunhão com os novos companheiros. Fechei lentamente o portão, caminhei pela varanda com os olhos cheios de memória, fechei a porta em silêncio, um silêncio sonífero alargado pela casa deserta. Acendi uma vela, esquentei o jantar e pus ambos sobre a mesa, numa atitude solene que só se consegue estando sozinho. Agradeci a Deus pela comida do dia e da vida, e mastiguei devagar, muito cansado do silêncio. Deitei-me sobre um colchão dolorido, lançando um último olhar para a penumbra indolente do quarto. Soprei lentamente a vela, que se apagou como uma promessa cumprida.



Escrito por tom boechat às 04:43 PM
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