Dias Ordinários


Pai

Fotografia: Tom Boechat
Texto: Elton Pinheiro






Pai, eu estive doente, mas agora já estou bem; as coisas por aqui são assim,: um dia tem frio e no outro não é possível encontrar minha jaqueta; qualquer artista tem fome, mesmo sem ter lido Kakfa; eu lembro de nossa biblioteca, quando ainda na casa do Morumbi, onde trabalhávamos, tão vespertinas aquelas prateleiras, sempre 3 horas da tarde uma luz que se habitava dentro de um romance; mas qual o título?, agora que fecho os olhos para a marcação do baque surdo que a cidade denuncia sem musas, julgamentos, perfeições, mestres; olhe pai, aqui tudo é rápido mas demora, sendo fantasia e dívida ao tempo mesmo, cheio de mudar-se; ao que esse eu sendo outro procura meu rosto quando finco no chão da cidade a bitola quase exígua de um pau sem pai; não existe tempo, nem para manjares ou explicações, noites, amores para jogar fora os sapatos depois de um dia, nem para gozar dentro a fome extirpada antes, nem trabalho para comer esse dia sem tempero; talvez a síndrome de antigos personagens, mas ainda assim nascidos à fórceps e cigarros em baforadas na cara quando também danço de garçom, noutro turno; veja que bóio em condimentos.., quando estou assim no metrô não penso em outra coisa; só penso em comer, comer e comer; Foi assim que conheci Teresa Kátia; querendo comer, quando andava a correr a tarde, antes dela e do vidro que nos separará pelos próximos meses, enquanto ela trampar na lanchonete e alicerçando paredes de vidro, campear equilibrando o corpo numa entremez preparada no ritmo dos expedientes; antes de tornar-se bailarina... por isso tem pés de ferro tão duros como um pão daqueles que comprávamos quando corríamos também à padaria, você lembra disso?; eu você e mamãe, meus irmãos mais novos nem existiam; nada do que eu vejo hoje existia; nem os neons, nem os livros, nem minha infância de onde eu nunca saí; pai, como estão as coisas? onde anda aquele seu amigo de BH, o da bicicleta sem freios que vinha nos trazer notícias dos seus amigos do bar; e Dona Esperança, eu soube que ela morreu semana passada..; Quando estou aqui fazendo um batuque o silêncio das suas palavras me contém e transige num rap, vejo que o trago dentro do peito num ensino único, singular, que arrebenta a cidade que imaginei para mim; assim de olhos fechados lembro de passagens distantes, você lembrará também, quando fomos à Lua; era o foguete roto por uma fissura o ano de meu nascimento; pai, eu já vivi tanto em 35 anos.., acho que já estava vivo quando nasci, é a única explicação plausível para tanta memória, espero que eu possa entendê-la algum dia, espero que você algum dia me perdoe; eu não queria manchar aquele livro onde perpetuamos nomes, lendas, partições, rotinas e mortes, resto da biblioteca a despedaçar-se que na prateleira daí faz quadro; é como o pôster de Matisse que tenho pendurado na parede, em meu apartamento de porão, onde uma harmonia em vermelho faz análises de gosto e técnica enquanto defloro outras moças além de Teresa, que nunca me amou nem nunca amará; há os dias aqui na plataforma, sentado e musicando cenários para uma gente objetiva, enquanto passam sem lembrar lembro de cada coisa.., as vezes daquelas mesas cheias de postas de bacalhau que hoje voam à minha frente quando fecho os olhos fazendo uma zabumba arder; sorrio um amargor lento que faz chorar por dentro o episódio de já não ser de lágrima que minha saudade vive; eu elaboro pedaços passados sem futuro e desmancho um futuro que não pôde ter um passado para se fazer nascer; arranco palmas dos transeuntes e uma esmola sem tragédia cospe de volta meu pau; misturo com um cheiro de xoio e mulheres, mostro um imerso frango assado numa caldeira de ácido, faço devagar a via crucis dos amantes que atravessarão toda uma noite; pai, é um molho que eu esparramo por cima de várias lembranças, alguns aniversários, festas, enterros de professores da escola, meu primeiro carro, aquele eterno black tie que passava na Sessão da Tarde e que usei para sacanear com gente pobre e arrogante, penso nisso enquanto como rapidamente um sanduba que vem guardado na jaqueta da Toulon, ela veio comigo para a América; você lembra, pai?, eu era cabeludo e tinha o ar dos Gigantes; Pai, preciso ir, hoje tem um Show do Peter Gabriel e depois do trabalho vou tentar entrar de penetra, se eu conseguir cantar junto Don´t Give Up já estarei feliz; Se tudo continuar dando certo, eu e Tereza Kátia vamos poder nos casar e conseguir um green card; conhecemos um marido e uma mulher bem legais; cada um de nós com seu respectivo par, o país de sonhos vai ser o pato do jogo; voltaremos a nos ver, espero que antes do casamento da Lêda, como está minha irmã?; agora tudo é distância mas não nos distancia, está difícil mas temos algo que antes se perdia; as palavras já são diferentes, pai, nós perdemos o silêncio daquela sala vendo as marcas da televisão; eu tenho que ir, minha vida é uma luta; fazer música é morrer do que a gente gosta.

Escrito por tom boechat às 03:04 PM
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