Dias Ordinários


Estação 34

Fotografia: Tom Boechat/USI
Texto: Luiz Guilherme Santos Neves

 

 

Se fosse um violino tocando em surdina seus acordes seriam valorizados. Se viessem de longe esses acordes, se chegassem à plataforma da Estação 34 sem que se soubesse onde se localizava o foco de sua origem, sem que se adivinhasse o canto de mundo de onde fluíam suas frases melódicas, nas alternâncias dos moderatos e alegretos, talvez o homem de terno preto sentado no banco da estação lhes desse um mínimo de atenção, talvez até se perguntasse se aquela era uma composição de Verdi ou Paganini e, ao se fazer esta pergunta, talvez se emocionasse recuando a um tempo em que uma música de Verdi ou Paganini se inscrevera em sua vida num momento de romantismo antes que ele se tornasse o ser empedernido que se tornara, antes que ele se transformasse no homem de terno preto em que se transformara para todo o sempre. Se viessem de longe esses acordes, se chegassem à plataforma da Estação 34 sem que se soubesse onde se localizava o foco de sua origem, sem que se adivinhasse o canto de mundo de onde fluíam as frases melódicas, nas alternâncias dos sustenidos e sibemóis, talvez as duas mulheres que conversavam no banco da estação sobre os problemas comuns de um cotidiano sem grandeza interrompessem o diálogo em que estavam enrodilhadas para dar atenção ao que ouviam, talvez até uma delas indagasse da outra se a música que vinha de um lugar imprevisto e distante não era a Valsa das Flores, de Tchaikovski, ou o Rêve d’Amour, de Liszt, abrindo-se em sua conversa uma vertente artística, levando-as a estabelecer suas preferências musicais, o gosto de uma por Chopin e Schubert, o gosto da outra por Schumann e Handel, certamente apreciando ambas a Ave Maria, de Gounod. 

Mas aquele não era um violino em surdina. Ao contrário, era um violino que se apresentava às claras numa estação de metrô, que ostensivamente se exibia sem pedir licença e sem fazer cerimônia, que impunha sua presença a contragosto dos que iam ter de ouvi-lo à força, ainda que o violinista que o tangesse timbrasse em preservar a pompa e circunstância dos violinistas das orquestras dos grandes palcos iluminados, trajado a caráter como convém a um virtuoso que exibe sua arte mesmo que fosse em lugares públicos. E talvez fosse precisamente aquela presença física e agressiva do violinista com sua finesse de artista aposentado, talvez fosse aquele seu modo eloqüente de se fazer presente à vista de todos com o capricho de um ex-primeiro-violino de sinfônica oficial o que mais incomodasse a loquacidade das duas amigas e a mudez do homem de terno preto, mais até do que os próprios acordes da Valsa das Flores, de Tchaikovski ou da Ave Maria, de Gounod, porque sabia o homem de terno preto e sabiam as duas mulheres faladeiras que, terminado o recital que não pediram nem solicitaram, o artista do violino deitaria a seu público de ocasião um olhar de quem esperava um voto de aplauso ao show que lhes foi dado, de quem contava com a consideração de uma contribuição à arte oferecida no recital improvisado da Estação 34, voto de aplauso a que não pretendiam, porém, se submeter o homem de terno preto, nem as amigas tagarelas, óbolo constrangido a que não desejavam se dobrar as amigas mergulhadas na intimidade das suas confidências, nem o homem de terno  enrustido em sua negra solidão, era preciso, pois, adotar preventivamente uma atitude de alheamento acintoso para com a exibição do violinista aposentado, há nessa indiferença explícita uma identificação mútua entre o homem e as duas mulheres sentados em pólos opostos do mesmo banco, percebe-se entre eles um traço de união que o encosto do banco em que se apoiam revela figurativamente, se lhes fosse possível dariam as costas para o homem do violino com suas músicas impertinentes, ele que as tocasse para o nada à luz fria e melancólica que o banhava, na Estação 34. Como se não fosse para o nada que o artista dilacerava a sua arte. 

 



Escrito por tom boechat às 11:42 AM
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